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Antiforense e Evidência Destruída

Quem apaga rastro deixa outro rastro. A perícia mostra o que foi destruído, quando e como, recupera o que ainda existe e diz com franqueza o que se perdeu.

O problema

Apagar também deixa vestígio

O invasor apaga os logs antes de sair. O colaborador formata o notebook antes de devolver. Quem forjou um documento ajusta as datas para que pareçam antigas. São técnicas antiforenses: ações para destruir, esconder ou falsificar vestígios.

Elas raramente funcionam por inteiro. O sistema registra o mesmo fato em vários lugares. Apagar um deles deixa os outros, e deixa uma lacuna onde deveria haver registro. A lei chama de vestígio também o material latente, aquele que não está à vista (CPP, art. 158-A, § 3º). Boa parte deste trabalho é encontrar o vestígio latente.

A perícia tem dois objetivos. O primeiro é provar que houve destruição, quando e por qual meio. Esse é um fato relevante por si: um disco apagado no dia da devolução conta uma história. O segundo é recuperar o que ainda for possível, e declarar o que não é. Quando a mídia está danificada, o trabalho segue no laboratório de Recuperação Forense de Dados.

Técnicas antiforenses

As técnicas, e o que ainda se recupera

Arquivos

Apagamento e formatação

Arquivo apagado continua no disco até ser sobrescrito. Em disco rígido, a formatação rápida também deixa o conteúdo. Sobrescrita total e o TRIM dos SSDs (a rotina que apaga de fato os blocos liberados) destroem de verdade. Mesmo então, o padrão da destruição mostra se ela foi proposital, e quando.

Registros

Limpeza de logs

Log apagado costuma sobreviver em outro lugar: no arquivo de paginação (onde o sistema grava em disco partes da memória), no coletor central de registros e em backups. Também no journal do sistema de arquivos (o diário interno de alterações) e nos registros da outra ponta da conexão. Em servidores Linux, histórico de comandos e journal apagados podem voltar pela estrutura do sistema de arquivos.

Datas

Timestomping

É a alteração das datas de um arquivo para que ele pareça mais antigo ou mais novo. O sistema de arquivos guarda mais de um conjunto de datas, o journal registra as mudanças e o documento tem datas internas. Quando essas fontes discordam, a manipulação aparece.

Cifragem

Criptografia

Conteúdo cifrado sem a chave legítima continua ilegível, e o laudo diz isso. Mas o ato de cifrar deixa rastro: quando, com qual programa, por qual conta. Cópias anteriores, memória e backups podem guardar o conteúdo de antes.

Execução

Programas de limpeza

Quem usa programa para apagar rastros precisa instalá-lo e executá-lo. A execução fica registrada em artefatos do sistema, mesmo depois que o programa é removido.

Ausência

Resultado negativo

Às vezes a resposta é que não há vestígio. O laudo mostra o que foi examinado, ancorado em hash, para que a ausência seja verificável, e não uma opinião.

Método

Como o laudo classifica cada conclusão

Em evidência destruída, o vestígio direto muitas vezes não existe mais. Por isso o grau de cada conclusão precisa ficar claro para o juízo e para as partes.

O laudo afirma como fato apenas o que o exame confirmou. Isso é próprio de todo laudo pericial e dispensa rótulo. As demais conclusões recebem uma de duas classes:

As etapas do método e da cadeia de custódia estão na página Método e Cadeia de Custódia.

O que engana a análise

Falso positivo, vestígio ilusório e vestígio forjado

Três situações enganam a análise apressada. O laudo nomeia cada uma, porque é assim que o contraditório consegue conferi-las.

Descartado

Falso positivo

O indicador apontou uma conduta que, examinada, não ocorreu. Uma coincidência de horário, um alerta automático, um vínculo aparente entre pessoas que não se sustenta.

Outra causa

Vestígio ilusório

O vestígio existe, mas não significa o que parece. Datas de acesso mudadas pelo antivírus, pela indexação, pela sincronização com a nuvem ou pela TI que abriu a máquina antes da perícia.

Manipulação

Vestígio forjado

O vestígio foi criado ou alterado de propósito, para esconder as ações do atacante ou para apontar outra pessoa. Acontece com atacante externo e com insider. A perícia confronta cada registro com fontes independentes que o manipulador não controlava.

Casos realizados

O que já passou por este núcleo

CASO REAL · ANONIMIZADO

O notebook devolvido em branco

Um colaborador estava sob suspeita. Antes do afastamento, o equipamento dele foi preservado em sigilo, sem aviso.

Quando ele devolveu o notebook, uma segunda preservação encontrou o disco zerado por comando enviado ao próprio controlador da unidade: entropia nula, isto é, só zeros do início ao fim. O padrão não era de falha nem de uso normal.

A perícia demonstrou o apagamento proposital no dia da devolução. A primeira preservação garantiu o conteúdo que se tentou destruir.

CASO REAL · ANONIMIZADO

Os logs que sobreviveram na memória

Num equipamento Windows envolvido em um incidente, os logs de eventos tinham sido apagados.

A perícia fez a busca por fragmentos (carving) no arquivo de paginação.

Registros apagados foram recuperados desse arquivo e entraram na linha do tempo do laudo.

EXEMPLO ILUSTRATIVO

O log que apontava para o colega

Uma empresa encontra, no sistema financeiro, transferências feitas com a conta de um analista. Tudo parece apontar para ele.

Nesse cenário, a perícia confrontaria esses registros com fontes que o fraudador não controlava: diretório de contas, VPN, controle de acesso físico e uso do computador do analista. Poderia achar o analista de férias, sem nenhuma conexão no período, e entradas do log com sequência quebrada.

O laudo mostraria um vestígio forjado: a conta do analista serviu para esconder quem de fato operou. A apuração seguiria para quem tinha acesso para editar aqueles registros.

Dúvidas frequentes
O arquivo foi apagado. Ainda dá para provar o que havia nele?
Muitas vezes, sim. O arquivo pode estar inteiro no espaço livre, em cópias de sombra (as versões anteriores que o Windows guarda automaticamente), em backups ou em outro dispositivo sincronizado. Quando não está, nome, tamanho e datas podem continuar registrados. O laudo diz o que voltou e o que não voltou.
Formatar o computador apaga tudo?
Depende. Em disco rígido, a formatação rápida costuma preservar quase todo o conteúdo. Sobrescrita total e SSD com TRIM destroem o dado de fato. Ainda assim, em geral a perícia consegue mostrar que houve formatação, e quando.
O próprio apagamento serve como prova?
Serve como fato técnico. O laudo demonstra o que foi apagado, quando e por qual meio, e o situa na linha do tempo do caso. O que esse fato significa juridicamente, avaliam o advogado e o juízo.
O invasor apagou os logs. A investigação acabou?
Não necessariamente. Os mesmos eventos podem estar no coletor central, na memória, em backups, nos registros do provedor ou da outra ponta da conexão. A lacuna na sequência dos registros também é vestígio.
Como saber se a prova juntada pela outra parte foi forjada?
Confrontando-a com fontes independentes: datas internas e externas, versões, servidores, registros de terceiros. A incoerência entre elas é demonstrável e pode ser conferida por qualquer perito.
Por que a TI da empresa não deve examinar a máquina antes?
Porque cada acesso altera datas e sobrescreve vestígios. O que a TI cria ao ligar e navegar no equipamento vira vestígio ilusório, e pode apagar o que o autor deixou. A preservação certa usa bloqueio de escrita e análise só na cópia.

Consulte também

Recuperação Forense de Dados →   Método e Cadeia de Custódia →   Forense Computacional e Investigação Digital →   Investigação Corporativa e Compliance →   Perícia em Nuvem, Identidade e DevOps →   Autoria Digital e Quebra de Sigilo Telemático →

Apagaram. Ainda assim, vale examinar.

A consulta inicial avalia o que a mídia e os registros restantes permitem recuperar e demonstrar, e declara por escrito o que se perdeu.

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